O que você está pensando?


Facebook e nossa vida

Até pouco tempo atrás, “O que você está pensando?” era a primeira pergunta que aparecia quando abria o Facebook. Agora mudou para “O que você deseja compartilhar?”.

O Facebook nos possibilitou uma nova forma de comunicação, uma maneira que nunca tínhamos experimentado antes, seja para compartilhar nossa vida como também para acompanhar a vida das pessoas.

Antes do Facebook, ninguém se encontrava com todas as pessoas que conhecia (amigos, colegas e parentes), e dizia algo como: “-Eu vou tomar um milk-shake na praça!”, ou “-Me sentindo alegre porque hoje é sexta-feira”, ou “-Que saco, perdi o ônibus outra vez”. Isso era impossível.

Ninguém compartilhava algo sobre sua vida tão publicamente, salvo alguns artistas e celebridades. Agora, qualquer pessoa compartilha com seus conhecidos desde os mais pequenos acontecimentos até seus momentos mais importantes.

O Facebook nos possibilitou “Postar” para todos, isso é algo muito recente. Não sei se você vai se lembrar como as coisas eram antes do Facebook, mas vou tentar recordar.

Antes compartilhávamos nossos sentimentos e experiências de vida somente para algumas pessoas, para uma ou para um pequeno grupo de pessoas.

Quando tinha um amigo ou parente que era de outra religião, não ficávamos falando a todo tempo sobre a nossa religião, sobre como ela é “melhor” ou “superior”, gerando atrito e discordando da pessoa em cada encontro. As pessoas se encontravam e falavam de outros assuntos.

No Facebook isso é muito diferente. As pessoas não se encontram, elas acompanham as postagens umas das outras, e cada um comenta sobre o quiser a qualquer momento. As pessoas observam, curtem ou comentam, concordam ou discordam (muitas vezes sem dialogar), e seguem suas vidas…

Há uns 10 anos atrás, quando estava conhecendo o Facebook, perguntei a um amigo como era, ele me respondeu “-É um jornalzinho da vida das pessoas”. Primeiro achei engraçado, depois fui vendo que era bem por aí. O Facebook é uma espécie de jornal onde você acompanha a vida das pessoas que conhece, o que elas pensam, o que fazem, como se sentem.

Quer saber onde uma pessoa está e o que está fazendo? Quer saber se casou, mudou, teve filhos ou terminou a faculdade? É muito fácil, basta abrir o Facebook e você fica sabendo!

Há uns tempos atrás, se você trabalhava com uma pessoa, sabia pouco da vida dela, do que gostava e não gostava, sabia apenas o que ela comentava no ambiente de trabalho. Hoje, se você tem um colega de trabalho e não conversa com ele, pode saber muito sobre ele simplesmente “adicionando como amigo”.

Hoje sabemos muito da vida das pessoas, sem conhecer elas. Antes, quem sabia muito sobre uma pessoa era um amigo íntimo, alguém mais próximo, com quem a pessoa compartilhava sua “intimidade”. Talvez pareça estranho usar essa palavra hoje, mas há poucos anos atrás, era comum compartilhar vivências íntimas somente com algumas pessoas, as mais próximas.

Se você queria saber se uma pessoa estava bem, e não tinha muito contato com ela, era preciso perguntar ao seu melhor amigo ou amiga, com quem ele compartilhava sua intimidade! Hoje, basta abrir o “Face” que está tudo lá, não há mais apenas um amigo “íntimo”, mas todos podem acessar a “intimidade” de todos. Curioso que nos sentimos tão íntimos do Facebook, que agora até o chamamos de “Face”.

Você pode saber da vida de uma pessoa sem nem ter contato com ela. Nós mudamos a maneira como “entramos” na vida das pessoas, e como elas “entram” em nossa vida.

Há pouco tempo atrás, quando encontrávamos com um amigo que há tempos não víamos, um perguntava ao outro “-Como tem passado? O que tem feito? Como está o trabalho, a família?”. Agora não precisa mais disso, quando nos encontramos ele já diz: “-Vi no Face que você está com outra namorada, ela faz enfermagem né. Seu trabalho é tranquilo, vejo sempre fotos alegres com o pessoal tomando café. Nas viagens de férias você foi pra Ubatuba e pegou chuva, que saco né!”

Não há mais o que perguntar, temos muito mais o que afirmar do que perguntar. Será que isso nos aproximou ou nos distanciou, uns dos outros?

Se combinamos de jantar com alguns amigos, no meio da janta há um momento incrível, é o de “tirar fotos pra postar”. Todos param de comer, arrumam o cabelo e a roupa, ficam sorrindo em volta da mesa olhando para um celular e fazem a foto. Basta alguns segundos e já está no “Face”!

Quanta coisa mudou com a entrada do Facebook? Será que alguém se lembra como era uma janta há 10 anos atrás?

O Facebook não possibilitou apenas um novo meio de (in)comunicação, mas com ele desenvolvemos novas maneiras de nos relacionar com os outros, com os colegas, conhecidos, parentes e amigos. Muitos estão no Facebook se expondo, colocando suas vidas, por verem os outros fazendo o mesmo, talvez não percebam bem todas essas mudanças.

Vez ou outra me pergunto até vamos com isso? O que estamos fazendo com nós mesmos e com as nossas relações? Como tudo isso afeta nossa maneira de ser e de nos relacionar, com os outros e com nós mesmos?

Bruno Carrasco

Bruno Carrasco

Psicoterapeuta que valoriza cada pessoa em seu modo de ser singular, promovendo seu autoconhecimento e sua autonomia para lidar com as dificuldades que atravessa, ampliando suas possibilidades de ser e de escolher sua vida. >Mais
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